Comparar governos sem fabricar um placar
O comparador não atribui uma “nota final” a presidentes. Ele organiza séries que possuem definição e período compatíveis e assinala quando a comparação direta é impossível ou enganosa.
Mesmo indicador + mesma metodologia + mesma unidade + datas explícitas. Quando qualquer uma dessas condições falha, o comparador mostra a ruptura em vez de esconder o problema.
Indicadores selecionados
| Indicador | Referência anterior | Referência posterior | O que podemos concluir |
|---|---|---|---|
| IPCA | 10,06% em 2021; 5,79% em 2022 | 4,62% em 2023; 4,83% em 2024; 4,26% em 2025 | Houve desaceleração frente ao pico de 2021. Não se atribui toda a variação ao presidente: Banco Central, câmbio, energia, alimentos e choques externos importam. |
| Desocupação anual | 13,2% em 2021; 9,3% em 2022 | 5,6% em 2025 | Queda forte na série PNAD Contínua. A série começa em 2012, portanto não é usada para comparar diretamente Lula I com períodos atuais. |
| Pobreza monetária | 31,6% em 2022 | 27,3% em 2023; 23,1% em 2024 | Queda expressiva na série harmonizada do IBGE. Benefícios sociais, emprego, renda e preços fazem parte dos mecanismos possíveis. |
| Gini | 0,517 em 2022 e 2023 | 0,504 em 2024; 0,511 em 2025 | Melhora em 2024 e reversão parcial em 2025: desigualdade não cai de forma automática ou permanente. |
| Mapa da Fome | Brasil fora no triênio 2011–2013; voltou em 2019–2021 | Fora em 2022–2024 e permaneceu fora em 2023–2025 | O indicador é média trienal e não pode ser convertido em “ninguém passa fome”. |
Três ciclos que exigem contexto
Lula I e II — 2003–2010
Expansão de políticas sociais, educação federal e renda, crescimento forte em parte do ciclo e impacto da crise global de 2008–2009. PIB de 2010 cresceu 7,5%, com efeito de base após 2009.
Bolsonaro — 2019–2022
Pandemia; governo defendendo inicialmente R$ 200 no Auxílio Emergencial, Congresso elevando e aprovando R$ 600, depois sancionados e executados pelo Executivo; Pix implantado pelo Banco Central; inflação de dois dígitos em 2021; recuperação do emprego em 2022 e conflitos institucionais relevantes.
Lula III — 2023–
Queda recente de pobreza e desemprego, saída do Mapa da Fome, PIB crescendo 2,3% em 2025 e inflação de 4,26%, com desafios de desigualdade, informalidade e investimento.
Caso-teste de atribuição: Auxílio Emergencial de 2020
O auxílio de R$ 600 é um exemplo de por que a Teovera separa proposta, negociação legislativa, sanção e execução. Dizer apenas “Bolsonaro deu R$ 600” apaga a disputa que definiu o valor; dizer que o Executivo não teve papel algum apaga a sanção, regulamentação e execução posteriores.
| Etapa | Valor / fato | Atribuição documental |
|---|---|---|
| Proposta inicial do governo | R$ 200 | A Câmara registrou expressamente que esse era o valor proposto pelo governo. |
| Primeira versão do relatório na Câmara | R$ 500 | O substitutivo incorporou sugestões de vários partidos e elevou o piso da negociação. |
| Negociação final | R$ 600 | Após negociações parlamentares, o Executivo aceitou o valor de R$ 600. |
| Aprovação e sanção | R$ 600 | Câmara e Senado aprovaram; Bolsonaro sancionou; a Lei 13.982/2020 fixou o benefício. |
Parlamentares de oposição, inclusive de partidos de esquerda, pressionaram por um benefício maior e contestaram a proposta inicial de R$ 200. O registro institucional, porém, mostra também participação de diversos partidos e negociação com a liderança do governo. A formulação mais precisa é: a esquerda e a oposição tiveram papel relevante na pressão pelo aumento, o Congresso construiu e aprovou o valor final de R$ 600, e o governo Bolsonaro posteriormente o sancionou e executou.
Em políticas públicas, “quem propôs”, “quem alterou”, “quem aprovou”, “quem sancionou” e “quem executou” podem ser atores diferentes. O comparador registra todas essas etapas.
Onde a comparação direta é proibida
- desemprego do início dos anos 2000 versus PNAD Contínua sem ponte metodológica;
- valores nominais de orçamento de anos diferentes sem corrigir inflação e tamanho da economia;
- valor autorizado por emenda versus valor comprovadamente desviado;
- unidade habitacional contratada versus entregue;
- bolsa de estudo versus financiamento estudantil;
- um ano de inflação versus média de mandato sem explicar choques.
Matemática que o leitor poderá reproduzir
Para cada comparação, o site informará fórmula, unidade e período. Variação percentual será calculada como (valor final − valor inicial) ÷ valor inicial × 100; diferenças entre taxas serão apresentadas em pontos percentuais quando apropriado.
Uma taxa que cai de 10% para 5% caiu 5 pontos percentuais, ou 50% em termos relativos. Misturar essas duas formas é uma fonte comum de propaganda numérica.
Sem “campeão” automático
Um governo pode ter melhor desempenho em emprego e pior em inflação; ampliar serviços e falhar em integridade; ou colher efeitos de políticas implantadas antes. O comparador foi desenhado para que essas contradições permaneçam visíveis.