TEOVERA
← Todos os capítulos

Capítulo 15 · Ação social

Pobres, órfãos e doentes: o que Ellen White escreveu — e o que fez

A preocupação de Ellen G. White com pessoas vulneráveis não aparece apenas em discursos religiosos. Há textos de sua própria autoria descrevendo acolhimento de crianças e enfermos, além de testemunhos históricos sobre assistência material a pobres e viúvas. O quadro, porém, precisa ser contado sem transformar caridade cristã do século XIX em um sistema moderno de assistência social.

Órfãos e crianças sem larPobres e viúvasEnfermos e atendimento gratuito

Uma teologia de responsabilidade social

Ellen White defendia que cristãos e igrejas tinham responsabilidade direta por pessoas pobres, viúvas, órfãos, idosos e enfermos. Seus escritos recorriam com frequência a textos bíblicos como Isaías 58 e apresentavam o cuidado material como parte da vida religiosa, não como atividade periférica.

Essa visão não corresponde exatamente ao conceito contemporâneo de política pública de assistência social. Seu modelo era fortemente comunitário e religioso: famílias, igrejas locais e indivíduos deveriam abrir casas, repartir recursos e assumir responsabilidade pelos vulneráveis.

Órfãos: primeiro, abrir a própria casa

Em textos publicados no fim do século XIX e início do XX, Ellen White insistia que crianças órfãs ou sem lar deveriam, sempre que possível, ser acolhidas em famílias. Ela criticava a ideia de transferir automaticamente toda a responsabilidade para grandes instituições e recomendava que membros da igreja abrissem suas casas.

Ela própria acolheu crianças?

Sim, há declaração direta de Ellen White. Em um texto publicado na Review and Herald em 26 de julho de 1906, ela afirmou que havia recebido em sua casa crianças de três e cinco anos e, em outros momentos, meninos de dez a dezesseis anos, oferecendo cuidado, educação e preparação para responsabilidades futuras.

No mesmo relato, declarou que, durante sua permanência na Austrália, recebeu em casa crianças órfãs que considerava expostas a situações de risco.

Viúvas, crianças e roupas para os pobres

John O. Corliss, ministro adventista que conviveu com o casal White, escreveu em 1923 que Ellen White levava pessoas necessitadas para sua casa e recordou, em determinado período, a presença de um menino, uma menina, uma viúva e suas duas filhas como integrantes da família doméstica. Corliss também afirmou tê-la visto comprar e distribuir grandes quantidades de roupas novas para pessoas pobres.

A casa de Cooranbong e os enfermos

Há também relato de Ellen White sobre assistência a doentes na Austrália. Em carta de 1905 e em publicação de 1906, ela descreveu que sua casa em Cooranbong funcionou em determinados períodos como local de acolhimento para enfermos e pessoas em sofrimento. Sua secretária, que possuía treinamento de enfermagem, prestava cuidados sem cobrança pelos serviços.

Esse trabalho antecedeu a construção de uma estrutura de saúde local mais organizada, depois da qual, segundo o próprio relato, sua casa deixou de carregar a mesma função assistencial.

Ela defendia grandes orfanatos?

Não de forma simples. Seus textos revelam uma posição mais específica: preferia que crianças fossem integradas a famílias quando isso fosse possível, mas admitia a existência de casas para órfãos e dizia que ajudar instituições desse tipo poderia ser um privilégio e uma responsabilidade. Portanto, seria incorreto descrevê-la tanto como “contra orfanatos” quanto como defensora indiscriminada de grandes instituições.

Pobres: ajuda imediata e responsabilidade comunitária

Os escritos atribuídos a Ellen White sobre assistência aos pobres incluem alimentação, vestuário, visitas, ajuda às viúvas e incentivo para que pessoas capazes fossem ajudadas a recuperar autonomia. Isso revela uma combinação de socorro imediato e preocupação com dependência prolongada, dentro das concepções sociais e religiosas de sua época.

O que é seguro concluir?

A documentação permite afirmar que Ellen White defendeu sistematicamente o cuidado de pobres, viúvas, órfãos e enfermos e que existem registros diretos de participação pessoal nesse tipo de trabalho: acolhimento de crianças, assistência doméstica a enfermos e ajuda material. Também há testemunhos posteriores corroborando uma prática doméstica de receber pessoas necessitadas.

O que não devemos fazer é transformar essa documentação em uma biografia idealizada ou dizer que ela criou um sistema moderno de assistência social. A evidência é suficiente para demonstrar ação beneficente concreta; não é necessário exagerá-la.

Fontes

  1. Ellen G. White — Review and Herald, 26 jul. 1906: relato sobre crianças, órfãos e enfermos em sua casa
  2. EGW Writings — experiências pessoais de Ellen White em trabalho beneficente e testemunho de J. O. Corliss
  3. Ellen G. White — Testimonies for the Church, vol. 6, “The Care of Orphans”
  4. Compilação Welfare Ministry — textos de Ellen White sobre cuidado de órfãos

Projeto editorial independente. Textos escritos por Ellen White, testemunhos retrospectivos e compilações posteriores são identificados de forma distinta. Revisão editorial: 29 de agosto de 2026.